"A ética renovada, iniciada a partir do Concílio Vaticano II, vê homens e mulheres como seres humanos integrais e compreende suas naturezas carentes e necessidades vitais. Não estou, com isso, justificando nada e, menos ainda, deixando de justificar. Mas o fato de um homem transar em casa não deve ser alvo de um julgamento precipitado ou de uma condenação, mas algo que propõe um diálogo mais aberto entre pais e filhos, sem hipocrisia, tabus ou aceitação de normas fixas que sirvam para todos" (p. 42).
A propósito comenta Mariângela Mantovani:
"O que assusta não é tanto o jovem transar ou não em casa, mas a idade cada vez mais tenra com que eles iniciam suas vidas sexuais. Embora com 12 ou 13 anos, uma garota possa estar com o corpo pronto para ter relações, nem sempre a cabeça está" (p. 43).
QUE DIZER?
Antes do mais, convém averiguar que sentido possam ter as relações sexuais pré-matrimoniais.
1. Relações pré-matrimoniais: avaliação
Amar é querer bem um ao outro;
implica doação ou entrega,
para que o bem do ser amado possa ser atingido.
Ora o amor que surge entre jovens solteiros é algo que vai crescendo: atravessa as fases do namoro e do noivado para chegar ao casamento. Só no matrimônio é que ocorre a união plena e comprometida entre os cônjuges; somente então existe o ambiente adequado para as relações sexuais, que supõem um lar e amor estável entre esposo e esposa para que possam educar seus filhos.
Sinal evidente de que as relações pré-matrimoniais estão fora de propósito é o fato de que são geralmente acompanhadas por anticoncepcionais e outros artifícios; induzem os interessados a mutilar a natureza, que por si é unitiva e fecunda. Se não se tomam tais cautelas, dá-se o perigo de engravidamento indesejado, que não raro termina com abortamento.
Com outras palavras:
A relação sexual é algo de tão íntimo e profundo que ela
não pode ser a primeira demonstração do amor
nascente; é, antes, a expressão suprema da maturação
e da consolidação desse amor. Unir-se sexualmente
significa doar-se por completo e, por conseguinte,
comprometer-se totalmente.
Quem separa a sexualidade do amor comprometido, procura apenas o prazer egoísta anexo às relações sexuais; esse prazer não é a finalidade da sexualidade, mas é algo que o Criador acrescentou à vida sexual para facilitar o desempenho da sua função unitiva e fecunda ([1]).
As relações entre sexualidade e amor podem ser assim expostas:
a) Prostituição: é a relação entre "anônimos", que muitas vezes não têm amor mútuo;
b) Amor livre: é a relação entre pessoas que se conhecem e amam mutuamente, mas sem compromisso ou sem assumirem definitivamente o seu consórcio;
c) Noivado: é amor, já, de certo modo, comprometido, mas ainda com reservas, podendo cada qual afastar-se;
d) Casamento: amor comprometido e duradouro, clima apto para a doação sexual, ao passo que nos três casos anteriores esta é despropositada.
2. As razões em prol das relações pré-matrimoniais
Costuma-se aduzir as três seguintes:
1) "É preciso testar o amor (a vida sexual) antes do casamento para evitar os fracassos posteriores".
Respondemos:
O teste sexual anterior ao casamento
não prova que os dois parceiros poderão
viver felizes a sua vida conjugal.
Esta implica convivência diária e partilha de responsabilidades, lutas, alegrias... - o que exige uma verdadeira conversão do coração, cujo alcance é muito mais amplo do que o do relacionamento sexual.
2) "O contrato matrimonial vem a ser mera formalidade. Não é o papel que faz o amor!"
Em resposta, devemos reconhecer que, de fato, o papel não é o essencial no casamento, mas é o amor. Todavia o papel lembra
A doação plena; é como que um espelho e um sinal que argui e que pode incomodar.
Ademais o casamento não é função que interesse a dois indivíduos apenas; não se pode viver o casamento em foro meramente privado e individualista; sem inserção corajosa e oficial dentro da comunidade, o amor corre o risco de ser mero egoísmo e manipulação do parceiro; é o nós da sociedade que lhe dá apoio para se consolidar. Por isto tanto os nubentes quanto a sociedade devem estar interessados na regulamentação ética e jurídica da vida conjugal. A sociedade compartilha, de certo modo, a vida dos seus casais, alegrando-se e entristecendo-se com eles.
3) "Hoje em dia os jovens têm que esperar anos para adquirir posição profissional definida e a estabilidade financeira necessária ao casamento. A longa espera gera impaciência, principalmente numa sociedade erotizante como a nossa".
Em resposta, observamos que um mal não se cura com outro mal. Aliás,
A espera também tem seus aspectos positivos;
fortalece a vontade, permite o aprimoramento da formação
humana e moral dos noivos...
Ademais quem não sabe dizer Não a si mesmo antes do casamento, dificilmente o dirá depois.
O problema dos impulsos sexuais depende muito das convicções de cada pessoa: quem julga que o imperativo do sexo é inexorável e deve ser atendido imediatamente, sentirá atrativos sexuais veementes; ao contrário, quem tem a convicção de que a vida sexual é a expressão consumada (e não inicial) do amor, não dará tanta importância aos apelos eróticos e saberá viver a continência com mais facilidade. Já se tem dito que o cérebro, com a sua fantasia e a sua memória, é a principal glândula sexual do organismo humano; e com razão... A continência dependerá, em grande parte, das convicções pessoais dos interessados; se alguém não acredita nela, não conseguirá praticá-la.
3. E o mal menor?
A Teologia Moral ensina que, quando alguém é obrigado a escolher entre alternativas moralmente más, deve escolher o mal menor. Ora, raciocinam alguns escritores, os casais estão diante de um dilema: ou deixam os filhos "transar" fora do casamento, correndo os riscos da violência e da promiscuidade, ou trazem para casa os namorados a fim de não enfrentarem tais riscos. Esta segunda alternativa representa o mal menor e, segundo parece, deve ser escolhida.
Respondemos que o princípio é válido, mas não se aplica ao caso em foco. Na verdade, este comporta uma terceira opção:
Ministrar aos adolescentes e jovens uma escala de valores que
mostre o papel da sexualidade humana no conjunto dos valores
da personalidade, enfatizar que o sexo não é um imperativo
diante do qual não é possível a abstinência,
apresentar as etapas da auto-realização,
a genitalidade vivenciada dentro do matrimônio...
Em suma, será necessário reformular a educação para que leve o educando a escalonar suas aspirações de acordo com o Fim Supremo do homem, que é transcendental.
Seria este o autêntico dever dos pais hoje, em vez de abrirem as portas para que possam os filhos "transar" em casa.
E qual é esse genuíno significado da sexualidade humana?
4. A sexualidade humana
Fisiologicamente considerado, o ser humano parece igualar-se aos animais quanto ao sexo. Todavia a sexualidade serve precisamente para diferenciar os homens e os Irracionais. Com efeito; nestes o sexo é instintivo, correspondendo a mera necessidade da natureza. No ser humano, ao contrário,
A sexualidade integra uma personalidade que tem seu ideal ou
que é animada por uma alma espiritual, capaz de transcender os
bens materiais e visíveis. Isto dá um sentido novo à sexualidade,
fazendo-a participar da nobreza da vida espiritual.
A sexualidade no homem está a serviço da plena realização do ideal de cada um. Donde se segue que ela não é plenamente humana se se limita ao ato sexual, como nos animais. Ela tende a efetuar uma comunhão de pessoas no casamento e à educação da prole, que traz a imagem e a semelhança de Deus.
Estas afirmações nada têm que ver com o pansexualismo de Sigmund Freud. Segundo este, a sexualidade comanda consciente ou inconscientemente a vida psíquica. Ao contrário, dizemos que é o espírito que comanda a sexualidade ou que o amor de benevolência, concebido pelo espírito, dirige a sexualidade. Vemos, pois, que
A sexualidade, no ser humano, não é valor absoluto e
autônomo, mas também não deve ser recalcada e pisoteada,
mas, sim, dirigida para construir o ideal da personalidade.
Quem recalca sistematicamente a sexualidade, arrisca-se a sofrer incursões sorrateiras e bestiais da mesma: "O homem não é nem anjo nem besta; desgraçadamente, porém, quem quer bancar o anjo, torna-se besta" (Blaise Pascal).
Essa orientação harmoniosa da sexualidade é o que se chama a virtude da castidade; vale tanto para a vida dos solteiros como para a dos casados.
No celibato e na vida una, não há recalque da sexualidade, mas transferência da sua direção para o Criador e, indistintamente, para todos aqueles que Deus ama.