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terça-feira, 14 de julho de 2015

Duas atitudes que precisamos equilibrar no namoro

Foi o famoso psicólogo Gustave Jung que, em 1921, trouxe uma importante contribuição para o entendimento dos “tipos humanos”, ou seja, a forma como as pessoas se relacionam com o mundo, seus interesses, referências, habilidades e disposições, como elas (re)agem diante de uma determinada situação.
Em seu entender, existem duas atitudes básicas: focar sua atenção no mundo externo (extroversão) ou no mundo interno (introversão).
Introvertido é aquele que tem interesse no mundo interior (ideias, pensamentos, sentimentos, abstrações, especulação filosófica). É reservado, pode parecer distante, distraído, interage pouco com as pessoas, prefere a solidão. É comedido, pensa muito antes de falar e agir, costuma guardar suas emoções e sente dificuldade em se expressar.
Já o extrovertido é o oposto: explosivo, impulsivo, fala e age sem pensar, gosta de interagir com as pessoas, é comunicativo, espontâneo, gosta de coisas práticas, é sociável, acessível, geralmente, descarrega as emoções na medida em que surgem.
Verdade que nenhum ser humano é exclusivamente extrovertido nem introvertido, ambas atitudes existem dentro de nós e variam de acordo com o momento como forma de adaptação. Entretanto, na maior parte do tempo, adotamos uma dessas atitudes, o que a torna parte de nossa personalidade.
Imaginemos uma pessoa que seja totalmente introvertida. Esse indivíduo seria egoísta, indiferente para com as necessidades dos outros, solitário, evitaria diálogos, guardaria suas raivas e frustrações e para explodi-las de maneira desproporcional em um momento fora de contexto.
Pensemos, agora, no caso de alguém se volta demais para o mundo externo. Ele correria o risco de ser superficial e hedonista; poderia apresentar dificuldade em criar vínculos duradouros e de fidelidade, pois tenderá a buscar sempre novos estímulos.
Suponhamos que haja um casal de introvertidos. Para os outros, esse relacionamento parece frio e distante, cada qual no seu canto, regado a discussões “filosóficas” e longos silêncios. Provável que um respeite o espaço e a privacidade do outro, porém, em alguns momentos, um pode se sentir ignorado pelo outro. Esse tipo de casal tende a se isolar dos demais, o perigo é lidar sozinho com os conflitos emocionais.
Imaginemos como seria o namoro de um casal de extrovertidos como descrevemos acima. O relacionamento pode parecer intenso, repleto de passatempos criativos, aventura, sempre estão buscando fugir do tédio e novos prazeres, o que corre o risco de os vínculos se desfazerem facilmente caso deixe de ser interessante.
um namoro entre uma pessoa introvertida e outra extrovertida pode resultar naquele casal em que um fica em casa e o outro comparece aos eventos sociais. O introvertido pode se sentir emocionalmente exausto ao ser obrigado a comparecer a esses compromissos, enquanto o extrovertido pode achar entediante ficar em casa.
O extrovertido pode se tornar a “voz” do casal, reforçando ainda mais a dificuldade do introvertido de interação. Este pode acusar o outro de superficial, ao passo, que o extrovertido o julga “lento”. Caso não seja bem administradas essas diferenças podem resultar em distanciamento cada vez maior do casal.  
Introversão e extroversão são atitudes que surgiram pela combinação complexa de elementos genéticos e elementos aprendidos através dos pais, da escola, da cultura, da experiência de cada um. Isso significa que de alguma forma, podemos aperfeiçoar nossas características de introvertidos ou de extrovertidos.
Para um outro psicólogo, Abraham Maslow, é necessário o equilíbrio entre interioridade e exterioridade a fim de que a pessoa se sinta inteira. Isso também se aplica ao namoro.
Interioridade implica que a pessoa se explorou e se experienciou. Ela está ciente da vitalidade de seus sentidos, emoções, mente e vontade; não teme nem desconhece as atividades de seu corpo e de suas emoções.
Interioridade implica autoaceitação, sentir-se a vontade com seu corpo, com suas emoções, tanto ternas quanto hostis, com seus impulsos, pensamentos e desejos. Não apenas estar à vontade com o que já experimentou, mas também aberto à novas sensações. Aceitar que sua condição interna possa mudar constantemente, reconhecer seu potencial, no entanto, ser realista com suas limitações; não ficar sonhando com alguém que quer ser, nem passar o resto da vida se convencendo de que é essa pessoa. Quem se volta de maneira adequada ao seu interior se escuta e se ama como realmente é. Confia em suas habilidades e recursos por que ver nisso dom de Deus e parte de quem ela é.
Por outro lado, uma atitude de exterioridade saudável implica que a pessoa está aberta não só ao seu interior, mas também ao ambiente que a cerca. A pessoa inteira estabelece com o outro (namorado, noivo esposa) um contato profundo e significativo. Não só escuta a si, como também não é indiferente ao sofrimento do outro, torna-se sensível, empático, solidário.
A exterioridade atinge seu ápice na habilidade de dar amor livremente. A pessoa inteira pode sair de si, pode se comprometer com uma causa em direção ao outro e a Deus e quando isso acontece, os nossos relacionamentos se enriquecem.
Namoro é tempo de crescimento mútuo, o extrovertido pode aprender com seu par introvertido acerca do mundo interior, enquanto este pode aprender daquele, habilidades interpessoais, olhar para o outro com misericórdia. Mas, para isso, é necessário respeitar o tempo de cada um. Quem entende o namoro dessa forma, compreende que o outro não é qualquer coisa, mas um dom de Deus e aos dons do Senhor precisamos ser gratos e cultivá-los.

sábado, 11 de julho de 2015

As faces do amor

O amor gera a vida; o egoísmo produz a morte. A psicologia mostra hoje com toda clareza que as graves perversões morais tem quase sempre como causa principal uma frustração de amor. Os jovens se encaminham para as drogas, para o sexo vazio, para o alcoolismo e para tantas violências, porque são carentes de amor, desnutridos de amor. A pior anemia é a do amor. Leva à morte do espírito. Ninguém pode ser feliz se não for amado; se não fizer uma experiência de amor. Se isto é importante na infância e na adolescência, também na vida conjugal isto é verdade.
 
 
 
E esse amor conjugal começa a ser aprendido e treinado no namoro. Na longa viagem da vida conjugal, que começa no namoro, você precisa levar a bagagem do amor.
 
Você amará de verdade o seu namorado,
não só porque ele é simpático,
bonito ou porque é um atleta,
mas porque você quer o bem dele e
quer ajudá-lo a ser ainda melhor, com a sua ajuda.
 
Muitas vezes você quis e procurou uma namorada perfeita, ou um rapaz ideal, mas saiba que isto não existe.
 
A primeira exigência do amor é aceitar o outro como ele é, com todas as suas qualidades e defeitos.
 
Só assim você poderá ajudá-lo a crescer, amando-o como ele é. Alguém já disse que o amor é mais forte do que a morte, e capaz de remover montanhas. O amor tem uma força misteriosa; quando você ama o outro gratuitamente, sem cobrar nada em troca, você desperta-o para si mesmo, revela-o a si mesmo, dá-lhe ânimo e vida, ressuscita-o. É com a chama de uma vela que você acende outra. É com a doação da sua vida que você faz a vida do outro reviver. Desde o namoro você precisa saber que “amar não é querer alguém construído, mas construir alguém querido.”
 
É claro que um casal se aproxima pelo coração, mas cresce pelo amor, que transcende os sentimentos e se enraíza na razão.
 
Todo relacionamento humano só terá sentido se implicar no crescimento dos envolvidos. De modo especial no namoro e no casamento isto é fundamental.
 
A ordem de Deus ao casal é esta: crescei. Deus não nos dá uma ajuda adequada para curtirmos a vida a dois; mas para crescermos a dois. Isto vale desde o namoro.
 
E o que faz crescer é o fermento do amor. Ninguém melhor do que São Paulo expressou as exigências do verdadeiro amor: “O amor é paciente, O amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, Não se irrita, Não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, Mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa. Tudo crê, Tudo espera, Tudo suporta. O amor jamais acabará” (1Cor 13, 4-7).
 
Medite um pouco em cada linha deste hino do amor, e pergunte a você mesmo, se você está vivendo isto no seu namoro.
  • Você é paciente com a namorada ou não, sabe se controlar diante dos defeitos dela?
  • Você é bondoso para com ele, ou será que algumas vezes exige vingança, e quer ir à desforra por causa de algo que ele fez e que você não gostou? Ser bondoso é saber perdoar, é ser compreensivo e tolerante, sem ser conivente com o erro, claro.
  • Será que você tem inveja dele porque ele a supera em certas atividades?
  • Será que você é um namorado orgulhoso, que acha que só por ser homem já é suficientemente superior a ela? Se você não admite ser ultrapassado pelo outro nas coisas boas, saiba que você não o ama de verdade; pois, quando se ama queremos que o outro seja melhor que nós.
  • Será que você não é arrogante, que se acha superior ao outro, e que quer sempre impor a sua vontade?
  • Até que ponto você permite que a presunção o domine, fazendo-o achar-se o bom?Saiba que a arrogância e a prepotência atravancam o caminho do amor e do crescimento do casal.
  • Será que você é escandalosa, e parte para a chantagem emocional para conseguir aquilo que você não consegue pela força dos argumentos? Saiba que a gritaria é muitas vezes a linguagem dos fracos, que agem assim por falta de razões.
  • Será que você é egoísta no seu namoro, e ele tem que fazer tudo o que você quer? Aqui está a pedra de tropeço principal para muitos casais. Uma vez que o egoísmo é o oposto do amor, um casal egoísta pode ser comparado a duas bolas de bilhar: só se encontram para se chocarem e se afastarem em sentidos opostos…
  • Será que você é daquelas que vive mau humorada ou que derruba o beiço por qualquer contrariedade?
  • Será que você é daqueles que se irrita por qualquer coisinha dela que não esteja do seu gosto?
  • Você perdeu a linha porque ele se atrasou quinze minutos?
  • Você deixou o seu namoro azedar porque ele olhou apenas um instante para a outra moça que passou ao lado?
O amor não se irrita, não xinga, não ofende, não grita! O amor não guarda rancor, diz o apóstolo. É claro que haverá no namoro momentos de desencontros. São normais os pequenos desentendimentos. É fruto das diferenças individuais e das circunstâncias da vida. O feio não é brigar, mas não se reconciliar, não saber perdoar, não saber quebrar o silêncio mortal e manter o diálogo. Para evitar as brigas e desentendimentos é preciso saber combinar as coisas. O povo diz que aquilo que é combinado não é caro. Aprendam a combinar sobre o passeio, sobre as atividades que cada um gosta de fazer, etc… É preciso dizer aqui que a face mais bela do amor é a do perdão. Você tem o direito de ser perdoada, pois errar é humano; mas tem também o dever de perdoar quando ele errar e pedir perdão.
 
O gesto mais nobre de Jesus foi o de perdoar os algozes que o crucificavam. Não pode haver futuro para um casal que não sabe se perdoar mutuamente. Esta é a maior reserva de estabilidade para o casal. Outra face bela do amor é a fidelidade. Ser fiel ao outro não quer dizer apenas não ter outro parceiro; é muito mais do que isto, é ser verdadeiro em tudo. É não tapear o outro em nada. É não ser fingido, mascarado ou dissimulador. Se você mente para a sua namorada saiba que está destruindo o amor entre vocês. Nada é mais fatal para o amor! A mentira gera a desconfiança; a desconfiança gera o ciúme; o ciúme gera a briga e a separação. Ser fiel ao outro é saber respeitá-lo, defendê-lo, e não traí-lo de qualquer forma, seja por pensamentos ou palavras. Se você fizer dos seu namoro uma brincadeira de esconde-esconde, você estará brincando de amar, e isto é muito mal. Portanto, quebre toda falsidade, dissimulação e fingimento, porque isto destrói o amor.
 
A mentira tem pernas curtas, diz o povo; ela logo aparece, e quando isto ocorre deixa o mentiroso desqualificado, e não mais digno de confiança.
 
Desde o namoro é preciso ter em mente que a beleza do amor está exatamente na construção da pessoa amada.
 
É uma missão para gente madura, com grandeza de alma. Construir uma pessoa é educá-la em todos os aspectos, e isso é uma obra do coração. O amor tudo suporta, tudo crê, tudo espera; o amor não passa jamais. Não há o que o amor não possa fazer. Quando não ajudamos o outro a crescer é sinal de que o nosso amor por ele ainda é pequeno. Se o seu namoro não for um exercício constante do amor, ele ficará vazio, monótono, e sem sabor. E como a natureza tem horror ao vácuo, este vazio será preenchido por desentendimentos e brigas.
 
Extraído do Livro Namoro (p. 29-34)
Prof. Felipe Aquino
Disponível também no Site da Editora Cleofas

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Oração dos namorados

Esta oração foi distribuída na Praça de São Pedro durante o encontro com o Papa Francisco a 14 de fevereiro de 2014, dia de São Valentim



Deus Pai, fonte de Amor,
Abre nossos corações e nossas mentes
para reconhecer em Ti a origem e a meta do nosso caminho de namorados.

Jesus Cristo, esposo amado,
ensina-nos a vida da fidelidade e do respeito,
mostra-nos a verdade de nossos sentimentos,
faz-nos disponíveis ao dom da vida.

Espírito Santo, fogo do amor,
acende em nós a paixão pelo Reino,
a valentia de assumir decisões grandes e responsáveis,
a sabedoria da ternura e do perdão.

Deus, Trindade do Amor,
guia os nossos passos.

Amém
Fonte: Aleteia

domingo, 5 de julho de 2015

Namoro é tempo de que?

Artigo extraído do site da Canção Nova
 
O namoro é uma experiência única e vivamente enriquecedora. Com ele muitos se empolgam e não poucos o procuram com ansiedade e o esperam com inúmeras expectativas. Ele ajuda o ser a colocar para fora o que tem de melhor, também o ensinando a bem acolher o que de bom o outro pode oferecer. Enfim, tal relacionamento se constitui como experiência singular e rica de ensinamento. Contudo, ele pode também se tornar traumático e confuso se não for experienciado com o devido tempero e maturidade.
 
 
 
Maturidade para ganhar e perder, para dar e receber… Quem entra em um namoro querendo somente ganhar já começou a perder. Esse relacionamento não poderá, de fato, acontecer se desde o seu início nele não existir um sentido de entrega e doação em favor do bem do outro. Sem o respeito, que nos faz compreender que o outro não é um “poço encantado” onde satisfazemos todos os nossos prazeres egoístas, o namoro não poderá se solidificar, ficando assim impedido de lançar as bases para um relacionamento estável – feliz – e duradouro.
 
O namoro é, com exatidão, um tempo de conhecimento e interação mútua. E é necessário que seja assim. É tempo de crises, de deparar-se com as diferenças que constituem “um outro” que não sou eu, e que por isso não pode ser por mim manipulado (alienado). Quem não emprega tempo e energias neste processo de conhecer, deixando-se conhecer, acabará colocando o futuro do relacionamento na rota do fracasso e de uma ampla “irrealização”.
 
Namoro sem crise, sem conhecimento e confronto de diferenças tende a se tornar – ainda que disfarçadamente – um esconderijo de múltiplas formas de superficialidade e descompromisso. Quem não faz a experiência de realmente conhecer a quem namora no seu melhor e pior – encantando-se e decepcionando-se – correrá o sério risco de não suportar a dureza manifestada pelo real, depois do casamento já concretizado.
 
Quem, no tempo de namoro, conhece somente o “corpo” (do outro) e não a “pessoa” por inteiro poderá, em qualquer alvorecer, deparar-se com a infeliz descoberta de que se casou com um (a) desconhecido.
 
Namoro é o momento de entrar em crise e dela juntos sair. É tempo de brigar e reconciliar-se, é tempo de não representar. Quem assume esse relacionamento acreditando “ser de vidro” – não resistente ao impacto do cotidiano – não entendeu o que significa amar e ser amado e quais são as exigências que brotam deste ofício.
 
Confronto de diferenças não é sinônimo de desamor, mas de autenticidade. Estacionar nas diferenças, permitindo que estas ditem definitivamente as regras da relação é, sim, o sinal do desamor em estado de constante vitória. Este encontro – que em momentos “desencontra” – oferecido pelo namoro é um momento único e determinante para o futuro do casal e da família. Por isso, precisa ser bem vivido e digerido com respeito e autodoação que desafiem a atual lógica utilitarista, que cada vez mais fabrica centenas de uniões fragmentadas e inexistentes (apenas aparentes).
 
Com as bases solidificadas em uma madura compreensão do que seja o amor – protaganismo de identidades e não ensaio de representações… – o namoro poderá crescer e se tornar, de fato, o fundamento para o futuro de uma família verdadeiramente feliz e centrada no essencial da vida.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Seis níveis do conhecimento em um relacionamento

Um namoro de qualidade se inicia com o autoconhecimento, um caminho em seis etapas, a ser trilhado todos os dias, por meio da autopercepção, da relação com os outros e com Deus.

O que eu sei de mim

Para me relacionar melhor com minha namorada (meu namorado) devo reconhecer vários aspectos de minha vida: a influência de minha história, cultura, educação, minhas virtudes, meus limites, medos, potencialidades, carências...

 
Tudo isso, foi moldando minha maneira de interagir com as pessoas e com o mundo, me tornou quem sou e, se não sou capaz de me aceitar, de reconhecer minhas demandas e de me relacionar de forma saudável comigo mesmo, tenderei a buscar no outro satisfação para minhas carências, estabelecerei relações de dependência afetiva e, no fim, poderei viver a insatisfação e a frustração pessoal. Se não conseguir aceitar a minha própria identidade, minha namorada (meu namorado) pode significar uma fuga de mim mesmo.

O que eu sei de mim, posso comunicar ao outro.

Terei relacionamentos com maior qualidade, à medida que, me aceito e sou capaz de comunicar quem sou de forma mais livre e verdadeira. É a minha “área aberta”, onde apresento à minha namorada (meu namorado) aquilo que eu descobri de mim e gostaria que ela(e) também conhecesse: minha história, meus pontos fracos e fortes, experiências, sentimentos etc. seja porque eu confio nela(e) ou porque me sinto seguro para falar abertamente sobre minhas qualidade e defeitos.

O que sei de mim, posso esconder do outro

Ao me revelar a quem eu amo significa que eu confio parte importante de mim, isso me torna também vulnerável: corro o risco de não ser aceito, de ser mal compreendido, de me sentir envergonhado, constrangido, talvez, perder o seu amor...

Às vezes, posso temer lhe dizer quem sou porque

“Se eu lhe dizer quem sou, você pode não gostar,
e isso é tudo o que tenho”
(John Powell)

Então, geralmente, tendo a diminuir a minha “área aberta” para dar espaço maior à minha “área secreta”.

Ao esconder dos outros quem sou, posso não fazer por mal, mas porque busco segurança, proteção, aceitação. Pode ser por decisão consciente, de não querer revelar algo ao meu respeito, ou porque o tempo de convivência ou as oportunidades de exposições com as demais pessoas envolvidas no relacionamento ainda não foram suficientes para que os elementos ocultos fossem revelados.

Aí desenvolvo “máscaras”, “personagens” e “papéis” para ser mais aceitos pelas pessoas com quem convivo ou para me adaptar à realidade ameaçadora: ora posso ser “o palhaço” que faz todos riem, enquanto choro por dentro; “o coitadinho”, querendo receber carinho e atenção; “o mal-humorado”, que deseja respeito; “o romântico” que deseja seduzir e conquistar; “o prestativo”, que faz tudo pelos outros, mesmo me prejudicando etc.

Contudo, ao me porta dessa forma, pago um preço: corro o risco de ser mal interpretado, meu namoro pode ficar na superficialidade, onde um não conhece o outro em profundidade, posso acabar me casando com uma completa desconhecida e, lá na frente, quando as “máscaras” caírem e o “eu verdadeiro” aparecer, surgirão as decepções.

Por isso, é importante buscar reduzir as minhas “áreas ocultas” e ampliar as “áreas abertas” no namoro – tempo de conhecimento mútuo. Relacionamentos amorosos devem ser baseados na verdade e não em segredos, a chave para isso é o diálogo sincero.

O que o outro sabe de mim.

Verdade que muito sobre mim, eu mesmo desconheço. Parte disso, pode me ser revelado pela interação com o outro: quem eu amo, pode refletir minhas virtudes e defeitos como espelho. Ela(e) conhece aspectos meus que nem sequer havia me dado conta.

Por isso, quando me deparo diante de afirmações que um outro faz ao meu respeito, posso ficar surpresos, subestimo, nego, justifico, racionalizo etc.

Por outro lado, ficar atendo aquilo que os demais expressam ao meu respeito, pode me render importantes descobertas sobre quem sou: ao lado de quem amo, posso ser muito mais que eu mesmo!
Todavia, deve-se ter prudência, pois, muitas vezes também, a paixão tem a tendência a ampliar as virtudes e diminuir defeitos, a projetar minhas qualidades e limites na pessoa amada e, com o passar do tempo, as lindas cores com as quais pintava minha amada tendem a desbotarem, pois, geralmente, enxergo o mundo com as lentes de minha própria história e sob a ótica dos meus preconceitos.

O que ignoramos sobre mim

Existe também aquilo que eu desconheço em mim e os outros também ignoram, aquilo que por alguma razão não se manifestou ainda: as potencialidades do inconsciente, as lembranças, coisas que foram excluídas, reprimidas, censuradas etc. Aí encontram-se as razões de muitos de meus comportamentos, neuroses, traumas, formas de ser, pensar, sentir, agir...

Essa “área desconhecida”, para a grande maioria das pessoas, é a maior e a mais difícil de ser reduzida, visto que seu conteúdo é acessível apenas através de técnicas especiais como a psicoterapia, autorreflexão, meditação, oração. Ela é responsável pela “surpresa” do ser humano: frequentemente, não sei do que sou capaz até passar por determinada situação; ela explica porque, mesmo depois de tempos de convívio, fulano foi capaz de fazer algo que eu não imaginava que ele seria capaz; isso ajuda também a dar esperanças para nosso crescimento pessoal...

De certa forma, o namoro se dá entre dois desconhecidos, mas isso não pode ser desculpa. Buscar o autoconhecimento é uma exigência natural de todo ser humano. Santa Teresa D’Ávila se surpreendia com o fato de tanta gente desconhecer o seu “Castelo Interior”, ou seja, da riqueza que guardo dentro de mim.

O que Deus sabe de mim.

São Tomás de Aquino observa que

“Quando vou ao encontro de mim mesmo, encontro dentro de mim um Outro que não sou eu e que, no entanto, é o fundamento do meu existir”

Esse Totalmente Outro, é Deus, o qual, independente, de como me vejo e as demais pessoas me percebem, conhecesse a profundezas de minha alma e me diz que sou sua imagem e semelhança, que sou Templo do Espírito Santo, que carrego um tesouro em vasos de argila, que possuo a dignidade de filho...
 
Ao me dedicar a um relacionamento amoroso, jamais posso perder essa perspectiva: preciso ver minha namorada com os mesmos olhos com os quais Deus me olha. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

8 Segredos dos relacionamentos bem-sucedidos

Quem não quer ter um relacionamento amoroso bem-sucedido, duradouro e feliz? Apresentamos 8 dicas eficazes para ajudar em seu namoro, noivado e casamento.

Faz algum tempo que eu e minha esposa trabalhamos com casais na igreja e, como bom católico, gosto muito dos conselhos que o Papa Francisco dá aos noivos: sempre se utilize das palavrinhas mágicas, “posso, com licença?”, “por favor”, “obrigado”, “desculpa”.
 
Existe, porém, algo mais que se pode fazer. David Niven, em seu livro “Os 100 segredos dos bons relacionamentos”, reuniu uma série de estudos científicos sobre os casais felizes, os quais resumimos aqui em 7 tópicos para serem aplicados na sua vida a dois, a 8 dica é a mais poderosa de todas:
 
1. Trabalhe seus aspectos emocionais.
 
Estudos mostram que, em geral, as pessoas têm três vezes mais a tendência de responsabilizar o outro pelos problemas conjugais. Entretanto, muitas dificuldades no relacionamento decorrem de questões individuais que podem ser trabalhadas, mais profundamente, através da psicoterapia.
 
Os perfeccionistas exagerados tendem a se sentirem 33% menos satisfação no relacionamento. Pessoas inflexíveis podem ter 38% mais conflitos. Os coléricos experimentam mais desavenças e por um tempo 81% maior. Pessoas altamente competitivas com seus parceiros reduzem em 37% sua satisfação.
 
Dúvidas constantes sobre os seus sentimentos aumentam em até três vezes a chance de divórcio e a frustração pessoal pode ser responsável por 50% dos conflitos.
 
Por outro, lado a satisfação consigo mesmo, aumenta em cinco vezes mais a possiblidade do indivíduo se sentir feliz na relação.
 
2. Reprograme suas crenças e idealizações.
 
Constatou-se que assistir muita TV reduz em 26% a satisfação com seu relacionamento e aumenta três vezes as chances de aceitar estereótipos e fazer suposições sobre os comportamentos e sentimentos do parceiro. Redes sociais e novelas influenciam o divórcio e até na atração sexual dos casais.
 
Outra pesquisa, apontou que elementos de conto de fadas estavam presentes em 78% das crenças que as pessoas tinham sobre o amor romântico, elas apresentavam maior chance de terem desilusão, sofrimento e angústia do que quem deu menos crédito aos contos de fadas. O mesmo foi observado acerca das comédias românticas.
 
Sabemos que as “distorções idealistas” são duas vezes maiores durante o noivado do que na fase do namoro ou do casamento. Pesquisadores descobriram também que as características que primeiro atraíram os apaixonados, em 34% dos casos, deixam de ser relevantes seis meses após o início do namoro.

Claro que as idealizações são inevitáveis: nove em cada dez casais recém-casados, imaginam que seu relacionamento será extraordinário. Contudo, ao despir as fantasias, ao retirar as máscaras e projeções, o importante é saber se estarei disposto a amar aquele(a) que restou.

A crença na força do relacionamento, é um aspecto presente em nove de cada dez casais bem sucedidos.
 
3. Faça planos para o futuro.
 
Casais que buscam formas imediata de prazer, procurando satisfazer seus desejos sem levar em conta as suas necessidades mais profundas, enfrentam duas vezes mais conflitos do que os casais que buscam formas mais generosas e dedicadas de felicidade.
 
Ao passo que pessoas que estavam felizes em seus relacionamentos têm cinco vezes mais perspectivas de longo prazo em sua vida, pensam em futuro distante e investem suas foças para construí-lo e manter o otimismo no futuro eleva em 42% a satisfação.
 
Descobriu-se que cultivar interesses juntos acrescenta 64% mais chances de um casamento duradouro.
 
4. Equilibre todos os aspectos de sua vida.
 
Estresse no trabalho reduz em 38% a satisfação no relacionamento e conflitos no relacionamento diminuem em 20% a satisfação com o trabalho. Os workaholics estão três vezes mais propensos a sentirem que sua vida é insatisfatória. Desavenças por dinheiro são fontes significativa de conflito em mais da metade das relações independentemente do nível de renda .
 
5. Equidade na relação
 
A igualdade na tomada de decisões, nos sacrifícios pelo relacionamento e na divisão de tarefas doméstica aumenta duas vezes mais a satisfação em relação a casais onde não há igualitarismo. Casais que dividem as tarefas domésticas são 19% mais felizes.
 
6. Estratégia para solução de conflitos
 
Diante dos problemas, o bom mesmo é manter a lógica, consciência e bom senso para aumentar em 33% sua satisfação na vida conjugal. Estabelecer regras para a solução de problemas reduz em 12% os conflitos e aumentar em 31% a satisfação. E, ao invés de “remoer” as brigas, busque reprogramar a raiva: 25% dos casais nem lembram sobre o que discutiram, mas “ruminam” os sentimentos.
 
Busque focar nos aspectos positivos do relacionamento para reduzir em 48% das desavenças. O humor é uma ótima estratégia (reduzir em 77% dos tumultos), mas use sem ironia e piadinhas.
 
7. Comunique-se de forma assertiva
 
Estudos com pessoas que viviam casamentos felizes há mais de trinta anos, mostrou que a qualidade da amizade entre os parceiros foi o fator mais citado como responsável pelo sucesso matrimonial.
 
Casais com alto grau de intimidade, que partilham seus pensamentos íntimos, têm 62% mais probabilidade de considerar seu casamento feliz e quando os cônjuges são mais diretos em buscar apoio um no outro têm chances de 61% de se sentirem apoiados no casamento. Por outro lado, casais que nunca discutem a relação têm 38% mais possibilidades de divórcio
 
8. Dica: a mais eficaz de todas!
 
Essa dica vem do papa Francisco: anote! Serve para tudo na vida
 
O segredo de uma vida bem-sucedida
é amar e dar-se em amor

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Motivos errados para se iniciar um namoro

Muitos namoros começam pelos motivos errados e, em consequência, ambos podem sair feridos da relação. É preciso exercitar muito o autoconhecimento, a liberdade interior e a maturidade emocional para não se iniciar um namoro por razões equivocada.

 
 
 
Conversando com algumas pessoas e pesquisando em livros e sites da Internet constatamos alguns motivos mais comuns para se iniciar um namoro de forma errada:
Satisfação das próprias necessidades sexuais. Hoje está cada vez mais comum os jovens iniciarem a vida sexual mais cedo. Muitos querem namorar (ou “ficar”) apenas para dar vazão à libido.
A sexualidade tem uma importância muito grande para a formação do ser humano. Entretanto, dar exclusividade ao sexo no relacionamento, pode gerar uma relação de dependência, de dominação, sensação de “vazio” e acarretar na coisificação da pessoa.
Cabe se perguntar honestamente: sinto prazer em estar com aquela pessoa, mesmo sem contatos mais íntimos? Se a resposta for negativa, talvez, deva se refletir sobre seu grau de maturidade emocional.
 
Outras pessoas entram em um relacionamento devido à necessidade de segurança, seja de um(a) parceiro(a) forte, que lhe dê proteção física ou alguém mais rico e poderoso capaz de oferecer estabilidade financeira ou ainda uma pessoa que seja seu “suporte” emocional.
Verdade que segurança é outra de nossas necessidades básicas, entretanto, iniciar um namoro baseado apenas nisso, pode resultar em decepção, haja vista que todos nós possuímos debilidades.
 
Pergunte-se: você será capaz de amar a pessoa com que você namora nos momentos de fragilidade?
Dentre outros motivos errados para se iniciar um namoro, existe o caso daquelas pessoas que buscam o outro apenas pela aparência física. Ora, um dia a beleza se desfaz! E se o relacionamento vive apenas a superfície do ser, tornar-se-á insustentável. Para amar verdadeiramente é preciso conhecer o outro. O livro de Provérbio lembra que
 
A beleza é passageira,
mas a mulher que teme
a Javé merece louvor
(Pr 31,30).
Há muitas pessoas se relacionam amorosamente com outras apenas por uma questão de status social: sonham em casar com alguém de poses, famoso, poderoso. Entretanto, basta observar as inúmeras revistas e programas de fofoca para ver que relações que tem por base esse pensamento estão fadadas ao fracasso.
Em nossa sociedade do “descartável”, há uma crise de valores morais gigantesca e encontramos os motivos mais banais para iniciar um namoro, um noivado ou um casamento. Há pessoas que namoram apenas para mudar de status nas redes sociais, para ter alguém com quem sair na sexta-feira e no sábado à noite, por conveniência de ter um carro ou a possibilidade de frequentar lugares aos quais nunca poderia ir.
Muitos jovens “ficam” por aposta ou competição ou mesmo por tédio e para passar o tempo. Tem aquelas pessoas que investem em uma relação só porque é proibida: o outro é casado ou os pais não deixam, aí namoram escondidos etc.
Talvez, o amigo Leitor ou a amiga Leitora conheça casos de pessoas que se casaram porque a mulher estava grávida ou simplesmente para ter uma festa e ganhar presentes! Razões que desvirtuam o sentido real do sacramento do matrimônio.
Há quem inicia um namoro só porque todos os amigos estão namorando e ela não quer ficar de fora dos “eventos”.
 
O medo de “ficar para titia” ou aqueles pais mais liberais que dizem “essa menina precisa arranjar um namorado...”
A sociedade pós-moderna que criou o mito de que se você estiver sozinho(a) você é uma pessoa infeliz ou mal sucedida! Acontece, porém, que namoro é uma questão vocacional e nem todos recebem o mesmo chamado.
 
Procure descobrir sua vocação, negá-la, muitas vezes, pode conduzir à insatisfação pessoal
Para muitas pessoas, o namoro pode ser motivado pela tendência à fugir das dores: da solidão, do “vazio” interior ou de um ambiente familiar conturbado, necessitando de carinho, cuidado e atenção.
As carências afetivas pessoais podem induzir à relacionamentos de dependência e dominação. A baixa autoestima pode levar algumas pessoas a namorarem qualquer pessoa que lhe dê um pouco de atenção e carinho. A falta de autoconceito elevado pode fazer com que um indivíduo se incline a namorar pessoas que possam humilhá-lo e confirme seus sentimentos de inferioridade. Há sujeitos que, por não saberem dizer “não” e, por isso, são incapazes de ceder as “pressões” da investida de alguém ou aqueles que “ficam” com fulano(a) por “pena” ou só porque “é o que apareceu”.
Muitas pessoas iniciam um namoro querendo viver um romance como nos filmes, novelas ou livros. Mas, isso pode ser prejudicial. Porque não existe amor pleno se não for acompanhado pela fidelidade, pelo acordo, pela generosidade e pela paciência.
Nas palavras do Papa Bento XVI: “para ser autêntico, o amor exige um caminho de amadurecimento (...) O amor vive de gratuidade, de sacrifício de si, de perdão e de respeito do outro” (11/06/2015).
O livro do Eclesiastes lembra que "debaixo do céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa", inclusive "tempo para amar" (Ecl 3,1.8). São Paulo ensina que “o amor é paciente... não busca o próprio interesse... tudo espera” (1Cor 13,4s.7).
Por fim, ao iniciar um namoro, tenha em mente o sábio conselho de Madre Teresa de Calcutá:
Não ame pela beleza,
pois uma hora ela acaba.
Não ame por admiração,
pois um dia, você se decepciona.
Apenas, ame, pois, o tempo
nunca pode acabar com um amor sem explicação

sábado, 20 de junho de 2015

Para pensar o namoro cristão

Selecionamos alguns conselhos da doutrina católica para se viver um namoro com sentido verdadeiramente cristão.
 
A Constituição dogmática Lumen Gentium afirma o sentido do namoro (e outros estados de vida):
 
“Todos os cristãos são, pois, chamados e obrigados a tender à santidade e perfeição do próprio estado. Procurem, por isso, ordenar retamente os próprios afetos” (LG, 42).
 
O papa João Paulo II, na exortação Familiaris Consortio relembra o papel formativo da família na orientação dos jovens no processo de amadurecimento que passa desde o namoro até se consumar no matrimônio:
A família deve orientar, desde à infância, os jovens à descoberta de si, de suas as forças e fragilidades, ao desenvolvimento da personalidade, do caráter, dos valores humanos, do autocontrole, da forma como se relacionar com as pessoas (inclusive do sexo oposto), com a sociedade e com o mundo. Bem como também é o período de se receber uma sólida formação espiritual e catequética sobre os valores cristãos (Familiaris Consortio, n.66).
O papa Bento XVI chegou a afirmar que o namoro tem que ser vivido tendo em vista o matrimônio e o papa Francisco, em encontro com jovens na Umbria, exortou: “não tenhais medo de dar passos definitivos, como o do matrimónio: aprofundai o vosso amor, respeitando os seus tempos e as suas pressões, orai, preparai-vos bem, mas depois tende confiança que o Senhor não vos deixa sozinhos! Fazei-o entrar na vossa casa como um membro da família, e Ele amparar-vos-á sempre”  (4 de Outubro de 2013).
 
O casal deve refletir a imagem de Deus um para o outro. Assim diz o Youcat, o catecismo jovem da Igreja Católica:
 
“Quem observa um casal de namorados olhando-se carinhosamente (...) fica com uma ideia (ainda que longínqua) do Céu. Pode ver Deus face a face é como um instante de amor, único e infindável” (YC, 158).
 
Ora, o que se diz aqui é que um deve ser a imagem e a semelhança de Deus na vida do outro: ao olhar para o namorado, a namorada deve sentir a presença de Deus; ao ver a face da amada, o namorado deve contemplar, de alguma forma, o reflexo do Senhor. O céu não é lugar das coisas passageiras, do provisório, do descartável; mas do amor firme, fiel, eterno. Céu é lugar da presença divina e da santidade.
 
O papa Bento XVI, em um encontro com namorados diz que os namorados têm que testemunhar esse reflexo divino na comunidade. E como fazer isso? Ele dá 10 conselhos práticos:
 
1. Evitar se fechar em “relações intimistas”;
2. Fazer com que o namoro se torne “presença ativa e responsável na comunidade” cristã;
3. Viver o amor como lugar da gratuidade, sacrifício de si, perdão e de respeito ao outro;
4. No namoro, deve-se buscar o amadurecimento;
5. Viver o tempo do namoro na expectativa do dom da vida matrimonial;
6. Deve-se percorrê-lo como um “caminho de conhecimento”
7. Procurar, desde já, “educar-se para a fidelidade”
8. Não se deve acelerar as etapas, pois isso “acaba por comprometer o amor”, que, ao contrário precisa, de respeitar os tempos e a gradualidade nas expressões;
9. O namoro deve “dar espaço a Cristo, que é capaz de tornar um amor humano fiel, feliz e indissolúvel”;
10. O casal deve “procurar e acolher a companhia da Igreja”. 
 
O Catecismo da Igreja Católica (CIC, 2350), referindo-se aos noivos, mas também podendo se aplicar aos namorados, ensina que:
  • “Os noivos (e namorados) são convidados a viver a castidade na continência”;
  • Viver “uma descoberta do respeito mútuo”
  • A “aprendizagem da fidelidade e da esperança de se receberem ambos da parte de Deus”;
  • “Reservarão para o tempo do casamento as manifestações de ternura específicas do amor conjugal”;
  • E também: “ajudar-se-ão mutuamente a crescer na castidade” (CIC, 2350).
O documento Sexualidade Humana, do Conselho Pontifício da Família, ensina que:
 
“A castidade exige que se evitem certos pensamentos, palavras e ações pecaminosas” (Sexualidade Humana, 18);
 
Deve-se ainda evitar “ocasiões de provocação e de incentivo ao pecado [bem] como saber superar os impulsos da própria natureza” (Sexualidade Humana, 18);
 
E ainda procurar “disciplinar os sentimentos, as paixões e os afetos” (Sexualidade Humana, 16);
 
Papa Bento XVI, em pronunciamento no Brasil (10 maio de 2007), também lembrou aos jovens que devem procurar “resistir com fortaleza às insídias do mal existente em muitos ambientes, que vos leva a uma vida dissoluta, paradoxalmente vazia, ao fazer perder o bem precioso da vossa liberdade e da vossa verdadeira felicidade”.
 
A Sagrada Congregação para a educação Católica, ao traçar as linhas gerais para uma educação sexual  nos lembra que:
 
As relações íntimas devem-se realizar somente no matrimônio (n.95);
 
E que “estão-se difundindo cada vez mais entre os adolescentes e os jovens certas manifestações de tipo sexual que por si se dirigem à relação completa sem, porém, chegar à sua realização; manifestações da genitalidade que são uma desordem moral, porque se dão fora de um contexto matrimonial”.
 
Ao contrário o documento lembra, na esteira de todo o pensamento da Igreja sobre o tema, que “o verdadeiro amor é capacidade de abertura ao próximo numa ajuda generosa, é dedicação ao outro para o bem dele; sabe respeitar a personalidade e a liberdade do outro; não é egoísta, não se procura a si próprio no outro, é oblativo, não possessivo. O instinto sexual, ao contrário, se entregue a si próprio, reduz-se à genitalidade e tende a dominar o outro, procurando imediatamente uma satisfação pessoal”.
 
Verdade que a Igreja reconhece que esse é um esforço muito grande e mas “torna-se possível pela graça divina mediante a palavra de Deus acolhida com fé, a oração filial e a participação nos Sacramentos, sobretudo, a Eucaristia e a Reconciliação” (n. 45), bem como “a oração pessoal e comunitária” como “o meio insubstituível para conseguir de Deus a força necessária para manter fidelidade aos compromissos baptismais, para resistir aos impulsos da natureza humana ferida pelo pecado e para equilibrar as emoções provocadas pelas influências negativas do ambiente” (n. 46).
 
Por isso, o papa Francisco aconselha que os namorados e noivos rezem um pelo outro e propõe a seguinte oração: “Senhor, o amor nosso de cada dia nos dai hoje”.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Para amar, preciso me conhecer

Na exortação apostólica Familiaris Consortio (n. 66), o papa João Paulo II fala de um processo formativo integral para o matrimônio, o qual se inicia na infância, perpassando toda a vida humana, inclusive, pelo namoro e matrimônio.

Nessa “preparação remota”, a pessoa deveria ser orientada pelos pais (bem como responsáveis) à descoberta de si, de suas as forças e fragilidades, ao desenvolvimento da personalidade, do caráter, dos valores humanos, do autocontrole, da forma como se relacionar com as pessoas (inclusive do sexo oposto), com a sociedade e com o mundo e receber uma sólida formação espiritual e catequética acerca os valores cristãos.

Verdade que essa “pedagogia para o amor” (para nos utilizarmos de uma expressão do papa Bento XVI) acontece cada vez menos no seio das famílias. Infelizmente, as consequências não são boas e repercutem no futuro relacionamento, quer dos jovens namorados, noivos e até casados: pesquisas apontam que 3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência em relacionamentos; 48% das mulheres agredidas declaram que a violência aconteceu em sua própria residência(01); o crescente número de divórcios - foram registrados 54.299 divórcios em 2014(02).

Lendo o livro de David Niven, “Os 100 segredos dos bons relacionamentos”, no qual se reúne uma série de estudos científicos sobre os casais felizes, percebe-se que muitos dos problemas de relacionamento (dos mais leves aos mais graves) acontecem porque as pessoas não se conhecem bem e, por isso, não trabalham suas questões emocionais mais profundas. Então, se eu quero ter um relacionamento bem sucedido, devo buscar o autoconhecimento.

O Papa Francisco, certa vez, se dirigindo a um grupo de jovens, afirmou que “temos o dever de nos conhecermos a nós mesmos, todos: cada qual deve conhecer-se a si mesmo, procurando os pontos nos quais podemos cometer mais erros, e ter um pouco de receio daqueles pontos”(03). Essa é uma busca fundamental do ser humano de todos os tempos e lugares.

Mas, o que é significa autoconhecimento? Trata-se de descobrir suas qualidade e defeitos, capacidades e limites, pontos fortes e debilidades, virtudes, valores, medos, gostos, preconceitos, aptidões, reconhecer os traços que compões a sua personalidade, caráter, suas carências, motivações, necessidades, perceber seus sentimentos e emoções etc.

Tudo isso, exige um grande esforço de autopercepção, autorreflexão, sinceridade, humildade. E como se consegue isso? Há uma infinidade de formas: (auto)avaliação de nossos pensamentos, sentimentos  e comportamentos – existem muitos testes que podem auxiliar nesse quesito – psicoterapia, as artes, os esportes, a introspecção...

Aqui, gostaria de falar sobre a espiritualidade. Viver a dois, não significa anular as diferenças e individualidade de cada um; tal como a Santíssima Trindade, onde há um só Deus, mas em Três pessoas divinas distintas (Pai, Filho e Espírito Santo), o casal deve viver essa comunhão, mas também viver sua individualidade: rezar juntos, mas também rezar separados, a fim de buscar também essa vivência própria com Deus e seu autoconhecimento.


O Papa João Paulo II nos recorda que “o homem deve, primeiro que tudo, entrar em si mesmo, deve conhecer-se profundamente, deve descobrir dentro de si a aspiração para Deus e os vestígios do Absoluto”(04). Diversos textos da Igreja afirmam que é a luz do Cristo que o homem é capaz do conhecer quem é verdadeiramente.

Contudo, o encontro com Cristo não pode se reduzir ao autoconhecimento, tem que ter “sabor de transcendência e missionaridade” como ensina o papa Francisco(05).

“O autoconhecimento acompanha o conhecimento do mundo, de todas as criaturas visíveis, de todos os seres vivos a que o homem deu nomes para afirmar em confronto com eles a própria diversidade” – a firma o papa João Paulo II(06). Conhecer-se tem a ver também com assumir toda sua história de vida, seus vínculos afetivos, familiares e sociais.

Poderia se dizer também que no encontro com o outro (o qual também carrega consigo qualidades e defeitos, capacidades e limites, subjetividade, uma história e vínculos distintos aos meus e até complementares) vou descobrindo novos recantos sobre mim mesmo.

E como saberei que adquiri autoconhecimento? Autoconhecimento não se adquire, se vive; é um processo para a vida toda; cada dia, nos encontros e desencontros, vou me descobrindo. Sou tudo aquilo que penso, julgo, sinto, valorizo, honro, estimo, amo, detesto, espero, acredito, me comprometo... “cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus” (Papa Bento XVI): sou imagem e semelhança do meu Deus!
 
E para que o nosso namoro, noivado e o casamento deem certo, quem quiser me amar tem que saber respeitar esses parâmetros.
 
NOTAS:

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Palavras do Papa João Paulo II aos jovens casais - parte I

Durante vários anos, o papa João Paulo II iniciou uma série de catequeses sobre a Teologia do Corpo, nelas, havia algumas exortações, conselhos e bênçãos voltadas para os jovens casais. Aqui se encontra reunidos trechos de setembro a dezembro de 1979.

“Casais, dais início à vossa nova vida com a Bênção do Papa, depois da de Deus no altar. Tende sempre diante da vossa consciência o sentido cristão da missão para a qual fostes chamados com o sacramento do matrimônio. Levai nela a límpida e plena força do amor abençoado, que, como diz Santo Agostinho, "é tanto mais forte quanto mais santo" (Ep 127, 9).  E nunca, nunca, venham a apagar o fogo, que acabastes de acender. Com estes fervorosos votos, abençoo-vos no nome do Senhor” (05/09/1979).
 
Procurai fazer de toda a vossa vida um sacramento, isto é, um sinal evidente do amor recíproco e total de Cristo e da Igreja.  E recordai-vos sempre que não existe pleno amor se não for acompanhado pela fidelidade, pelo acordo, pela generosidade e também pela paciência.  Nestas condições vereis como é verdadeiramente belo viverdes juntos, vós e os vossos filhos, como parte da maior comunidade eclesial” (12/09/1979).
 
 
 
“(...) o segredo da vossa consolação está na presença de Cristo que vos uniu no matrimônio com a sua graça divina. Permanecei unidos em Cristo: eis os meus votos! A presença de Jesus, na vossa casa, no vosso amor, nas vossas escolhas, seja sempre a luz que vos ilumine e a consolação que vos alegre” (19/09/1979).
 
“Vós fostes os "ministros" do vosso matrimônio; e, por conseguinte, a "graça sacramental" de Cristo, que torna sagrada e perene a vossa união, recebeste-la através da vossa própria vontade de amor e de consagração recíproca”.
“A dignidade do matrimônio é imensa! Por isso, permanecei no amor de Cristo”!
“Recordai-vos do que disse Jesus: "Eu sou a videira, vós as varas! Quem está em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto... Nisto é glorificado o meu Pai: Dando vós muito fruto!" (cfr. Jo c.15). Levai frutos de bondade, de caridade, de santificação: seja este o vosso compromisso de vida conjugal” (26/09/1979).
 
“(...) agradeço terdes vindo aqui testemunhar perante a comunidade cristã a beleza e a grandeza do Sacramento, instituído por Jesus para santificar o amor e torná-lo estável.  Oxalá o vosso exemplo seja para os mais jovens um apelo salutar aos princípios cristãos, os únicos que podem garantir ao lar doméstico a verdadeira e duradora felicidade” (10/10/1979).
 
“Aos jovens Casais, além de desejar todo o bem d'Aquele que instituiu a matrimônio, quereríamos recordar as palavras do Apóstolo São Paulo aos Efésios (5, 22 ss.), o qual compara o Esposo com Cristo, a Esposa com a Igreja. E como Cristo morreu pela Igreja, e esta não tem outro desejo senão agradar-lhe e servi-lo, assim deveis fazer também vós.  O pensamento da vossa recíproca dignidade será fonte de profundo respeito, de firmeza, de amor e de toda a ditosa consolação” (24/10/1979).
 
Não existe pleno amor
se não for acompanhado
pela fidelidade, pelo acordo,
pela generosidade e também
pela paciência
 
“E agora dirijo-me a vós, queridos jovens casais, para vos apresentar as minhas paternais felicitações, que são ao mesmo tempo convite à confiança e à alegria. A alegria, desabrochada nos vossos corações com a graça do Sacramento, vos acompanhe por toda a vida e vos ajude a vencer as tentações que derivam do egoísmo, o grande inimigo da união familiar. Fazei que as novas famílias — nascidas do vosso livre consentimento, vivificado e tornado oferta de amor pela presença de Cristo — sejam sempre acompanhadas da vontade constante e recíproca de bem; permaneçam sólidas na rocha da unidade e da fidelidade; sejam ricas daquelas virtudes cristãs que fundam e garantem a prosperidade do lar doméstico” (31/10/1979).
 
“(...) O matrimônio, precisamente porque inclui uma especial participação no amor nupcial de Cristo à sua Igreja, do qual é sacramento, isto é sinal eficaz, é uma totalidade onde se encontram todas as componentes da pessoa; uma unidade profundamente pessoal, que exige a indissolubilidade e a fidelidade recíproca definitiva, e se abre à fecundidade. Oxalá o vosso amor tenha este significado novo do cristianismo que o purifica e consolida” (07/11/1979).
 
“(...) O Senhor, Deus da bondade, da paz e da alegria, esteja sempre convosco! Ele que abençoou e consagrou o vosso amor mediante o sacramento do matrimônio, vos conceda a graça de conservardes este amor indefectível no tempo, na essência e no seu fim”! (14/11/1979).
 
“(...) Vós, queridos Casais, quisestes Jesus no Sacramento do matrimônio; viestes ter com o Papa, Vigário de Jesus, para receber d'Ele a Bênção do Senhor; se iniciastes tão bem, como verdadeiros cristãos, a vossa convivência, não posso desejar-vos nada melhor do que isto:  estai sempre com Jesus, na fé e na vida de cada dia; tende-O sempre, Jesus, no meio de vós, também com a vossa oração. Deste modo não vos será difícil caminhar juntos no amor, na fidelidade, no acordo mútuo, na compreensão e paciência recíprocas e na paz; e os vossos filhos receberão de vós a melhor educação, o melhor bom exemplo, e a mais querida e salutar recordação. Por conseguinte, estejam sempre com Jesus, e Jesus esteja sempre convosco” (21/11/1979).
 
“O Filho de Deus que, encarnando, escolheu nascer no âmbito de uma família humana, vos conceda a graça de vos recordar por toda a vida a dignidade e a responsabilidade que derivam do Sacramento do matrimônio; vos dê sempre a força para viverdes uma vida exemplar praticando as virtudes cristãs e, por fim, preencha a vossa família com os Seus dons celestiais de paz, alegria e prosperidade” (12/12/1979).
 
“Caríssimos jovens Casais! (...) A meditação natalícia sobre o Menino Jesus – nascido na pobreza de Belém, mas com a riqueza do amor de Maria e de José vos leve a serdes sempre testemunhas convictas da alegria suprema do Natal. Jesus nasceu por nós, veio também para iluminar, de modo definitivo, o valor do amor, a verdadeira natureza do matrimônio, a alegre e séria responsabilidade de dar a vida a novas criaturas, por Ele desejadas, amadas, remidas e destinadas para a felicidade eterna”.
 
“Os meus votos de felicidade e a minha Bênção vos acompanhem” (19/12/1979).
 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Papa Bento XVI fala aos namorados

Queridos namorados!

Sinto-me feliz por concluir este dia intenso, ápice do Congresso Eucarístico Nacional, encontrando-me convosco, como que querendo confiar a herança deste acontecimento de graça às vossas jovens vidas.
 
De resto, a Eucaristia, dom de Cristo para a salvação do mundo, indica e contém o horizonte mais verdadeiro da experiência que estais a viver: o amor de Cristo como plenitude do amor humano. Agradeço a saudação cordial do Arcebispo de Ancona-Osimo, D. Edoardo Menichelli, e a todos vós por esta vivaz participação; obrigado também pelas perguntas que me fizestes e que acolho confiando na presença entre nós do Senhor Jesus: só Ele tem palavras de vida eterna para vós e para o vosso futuro!
 
Aquilo que pondes em questão, no atual contexto social, assume um peso maior. Gostaria de vos oferecer apenas algumas orientações para uma resposta. Em certos aspectos, o nosso é um tempo difícil, sobretudo para vós jovens. A mesa está posta com tantas coisas apetecíveis, mas, como no episódio evangélico das bodas de Caná, parece que faltou o vinho da festa. Sobretudo a dificuldade de encontrar um trabalho estável é causa de incerteza sobre o futuro. Esta condição contribui para adiar a tomada de decisões definitivas, e incide de modo negativo sobre o crescimento da sociedade, que não consegue valorizar plenamente a riqueza de energias, de competências e de criatividade da vossa geração.
 
Falta o vinho da festa também a uma cultura que prescinde com frequência de critérios morais claros: na desorientação, cada qual é estimulado a mover-se de maneira individual e autónoma, muitas vezes unicamente só no perímetro do presente. A fragmentação do tecido comunitário reflete-se num relativismo que afeta os valores essenciais; a consonância de sensações, de estados de ânimo e de emoções parece mais importante do que a partilha de um projeto de vida.



Também as opções fundamentais se tornam assim frágeis, expostas a uma revogabilidade perene, que com frequência é considerada expressão de liberdade, mas ao contrário, indica a sua carência. Faz parte de uma cultura privada do vinho da festa também a aparente exaltação do corpo, que na realidade banaliza a sexualidade e tende a fazê-la viver fora de um contexto de comunhão de vida e de amor.
 
Queridos jovens, não tenhais medo de enfrentar estes desafios! Nunca percais a esperança. Tende coragem, também nas dificuldades, permanecendo firmes na fé. Tende a certeza de que, em todas as circunstâncias, sois amados e protegidos pelo amor de Deus, que é a nossa força. Deus é bom. Por isso é importante que o encontro com Ele, sobretudo na oração pessoal e comunitária, seja constante, fiel, precisamente como o caminho do vosso amor: amar a Deus e sentir que Ele me ama. Nada nos pode separar do amor de Deus!
 
Depois, tende a certeza de que também a Igreja está próxima de vós, vos ampara, não cessa de olhar para vós com grande confiança. Ela sabe que tendes sede de valores, dos verdadeiros, sobre os quais vale a pena construir a vossa casa! O valor da fé, da pessoa, da família, das relações humanas, da justiça. Não desanimeis face às carências que parecem afastar a alegria da mesa da vida. Nas bodas de Caná, quando o vinho terminou, Maria convidou os servos a dirigirem-se a Jesus e deu-lhes uma indicação clara: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2, 5). Valorizai estas palavras, as últimas de Maria descritas nos Evangelhos, quase um seu testamento espiritual, e tereis sempre a alegria da festa: Jesus é o vinho da festa!
 
Como namorados estais a viver uma fase única, que abre para a maravilha do encontro e faz descobrir a beleza de existir e de ser preciosos para alguém, de poder dizer um ao outro: tu és importante para mim. Vivei com intensidade, gradualidade e verdade este caminho. Não renuncieis a perseguir um ideal alto de amor, reflexo e testemunho do amor de Deus!
 
Mas como viver esta fase da vossa vida, como testemunhar o amor na comunidade? Gostaria de vos dizer antes de tudo que eviteis fechar-vos em relações intimistas, falsamente animadoras; fazei antes com que a vossa relação se torne fermento de uma presença ativa e responsável na comunidade.

Depois, não vos esqueçais de que para ser autêntico,
também o amor exige um
caminho de amadurecimento:
a partir da atração inicial
e do «sentir-se bem» com o outro,
educai-vos a «amar» o outro,
a «querer o bem» do outro.
O amor vive de gratuidade,
de sacrifício de si,
de perdão e de respeito do outro.

Queridos amigos, cada amor humano é sinal do Amor eterno que nos criou, e cuja graça santifica a escolha de um homem e de uma mulher de se entregarem reciprocamente a vida no matrimónio. Vivei este tempo do namoro na expectativa confiante desse dom, que deve ser aceite percorrendo um caminho de conhecimento, de respeito, de atenções que nunca deveis perder: só sob esta condição a linguagem do amor permanecerá significativa também com o passar dos anos.
 
Depois, educai-vos desde já para a liberdade da fidelidade, que leva a proteger-se reciprocamente, até viver um para o outro. Preparai-vos para escolher com convicção o «para sempre» que conota o amor: a indissolubilidade, antes de ser uma condição, é um dom que deve ser desejado, pedido e vivido, para além de qualquer mutável situação humana.
 
E não penseis, segundo uma mentalidade difundida, que a convivência seja uma garantia para o futuro. Acelerar as etapas acaba por «comprometer» o amor, que ao contrário precisa de respeitar os tempos e a gradualidade nas expressões: tem necessidade de dar espaço a Cristo, que é capaz de tornar um amor humano fiel, feliz e indissolúvel.
 
A fidelidade e a continuidade do vosso gostar um do outro tornar-vos-ão capazes de estar também abertos à vida, de ser pais: a estabilidade da vossa união no Sacramento do Matrimónio permitirá que os filhos que Deus vos conceder cresçam confiantes na bondade da vida. Fidelidade, indissolubilidade e transmissão da vida são os pilares de qualquer família, verdadeiro bem comum, património precioso para toda a sociedade.
 
Desde já, fundai sobre eles o vosso caminho rumo ao matrimónio e testemunhai-o também aos vossos coetâneos: é um serviço precioso! Sede gratos a quantos vos acompanham na formação com zelo, competência e disponibilidade: são sinal da atenção e da solicitude que a comunidade cristã vos dedica. Não estejais sós: sede os primeiros a procurar e a acolher a companhia da Igreja.
 
Gostaria de voltar mais uma vez a falar de um aspecto essencial: a experiência do amor tem no seu interior a propensão para Deus. O verdadeiro amor promete o infinito!

Por conseguinte,

Fazei deste vosso tempo de preparação
para o matrimónio um percurso de fé:
redescobri para a vossa vida de casal
a centralidade de Jesus Cristo e do
caminhar na Igreja.

Maria ensina-nos que o bem de cada um depende do escutar com docilidade a palavra do Filho. Em quem confia n’Ele, a água da vida quotidiana transforma-se no vinho de um amor que torna a vida boa, bela e fecunda. De fato, Caná é anúncio e antecipação do dom do vinho novo da Eucaristia, sacrifício e banquete no qual o Senhor nos alcança, nos renova e transforma.
 
Não percais a importância vital deste encontro: a assembleia litúrgica dominical vos encontre sempre plenamente partícipes: da Eucaristia brota o sentido cristão da existência e um novo modo de viver (cf. Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis, 72-73). Então, não tereis medo de assumir a importante responsabilidade da escolha conjugal; não receareis entrar neste «grande mistério», no qual duas pessoas se tornam uma só carne (cf. Ef 5, 31-32).
 
Caríssimos jovens, confio-vos à proteção de São José e de Maria Santíssima; seguindo o convite da Virgem Mãe — «Fazei o que Ele vos disser» — não vos faltará o gosto da verdadeira festa e sabereis levar o «vinho» melhor, aquele que Cristo dá à Igreja e ao mundo. Também eu gostaria de vos dizer que estou próximo de vós e de todos os que, como vós, vivem este maravilhoso caminho de amor. Abençoo-vos de coração!

Discurso do Papa Bento XVI
(11 de setembro de 2011)